GENEALOGIA BRASILEIRA
Estado do Rio de Janeiro - Povoadores da Região Serrana

 

                                      Lênio Luiz Richa (lenioricha@yahoo.com.br)

 

 

                                                         O PROCESSO DE MÃO DE LUVA

 

          Manuel Henriques, o Mão de Luva, é considerado por muitos como o verdadeiro fundador de Cantagalo, RJ, Brasil, e o primeiro povoador de toda a atual Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro, pois era o chefe dos garinpeiros ilegais que faiscavam nos rios da região, a partir de um povoado de cerca de 200 casas que havia no local onde depois foi fundado o primeiro arraial pelas autoridades, que é hoje a cidade de Cantagalo.

          Muitos pesquisadores já acreditavam que ele seria apenas uma lenda, inventada por algum historiador e copiada pelos outros, em razão da dificuldade de se encontrar qualquer documento relativo a ele, no Brasil e até em Portugal. Entretanto, agora não há mais dúvida, os historiadores antigos estavam corretos, o amigo, genealogista, Filipe Pinheiro de Campos, de Portugal, encontrou na Torre do Tombo, em Lisboa, e gentilmente enviou para o site, um processo de 1781, contra o Mão de Luva e o seu amigo Agostinho de Abreu Castelo Branco, o Francisco de Paula, que não só ratifica o que havia sido deixado pelos historiadores, como dirime dúvidas, e acrescenta alguma coisa que poderá servir de pista para que se ache mais informações sobre eles e as famílias que moravam no seu povoado.

          Acreditamos que o amigo Filipe foi o primeiro pesquisador a encontrar este importante documento, e encaminhá-lo para que fosse divulgado, pois, caso contrário, as mencionadas dúvidas já teriam sido dirimidas pelos historiadores mais recentes.

          Nesse pressuposto, na impossibilidade de introduzir todo o conteúdo no site, passamos a descrever, resumidamente, e comentar as partes que consideramos mais importantes do processo, com vistas a ajudar as pesquisas dos historiadores e genealogistas brasileiros eventualmente interessados nas pesquisas da região.

          - Fls. 3 e 19: José Gomes, testemunha, preso em cárcere secreto da inquisição confessa que Agostinho, "que tem mudado o nome no de Francisco de Paula", é filho de um Advogado, por alcunha "lecia? Secia?" e Manuel Henriques, "o Luva", de Chopotó, ambos da Serra dos Órgãos, Bispado do Rio de Janeiro, cometeram desacato ao Santíssimo Sacramento, trazendo uma partícula consagrada ao pescoço e aconselhando a outros que (também) o fizessem, o que ouviu de Joaquim Lopes e seus irmãos.

          - Fls. 10: Ano de 1782 - José da Silva Pereira, natural desta cidade do Rio de Janeiro, batizado na freguesia de Nossa Senhora da Piedade, recôncavo da mesma cidade, morador na freguesia de Inhomerim, que vive da sua lavoura de mandioca, ..., e disse ter 37 ou 38 anos, pouco mais ou menos. Disse que conhece muito bem a Agostinho de Abreu Castelo Branco, filho do Dr. Jorge de Abreu, o qual foi por algum tempo seu vizinho, e também conhece muito bem a Manuel Henriques, chamado "O Mão de Luva", com quem andou sete meses em um descoberto de ouro, e sabe, por ouvir falar, que o dito Agostinho, com o nome mudado para Francisco de Paula, é filho do dito Dr. Jorge, por alcunha "o cecia?", era natural das Minas, e o Manuel Henriques, duvida ser de Minas ou desta cidade do Rio de Janeiro, filho de um homem morador na freguesia de São Nicolau de Suruí, recôncavo desta cidade, chamado Antonio ou Inácio "...", mas que na verdade não se lembra do nome. Ele, testemunha, foi vizinho de Agostinho perto de um ano, há cinco ou seis anos, pouco mais ou menos, e Manuel Henriques, por ter convivido com ele por sete meses, no dito descoberto de ouro, haverão três anos e meio. Depois Agostinho e Manuel Henriques passaram-se para as Minas Gerais, onde se diz serem moradores. E que Manuel Henriques lhe contara uma façanha acontecida em Vila Rica, entre ele e um Governador cujo nome não disse, na presença também de José Gomes, de Joaquim Lopes, de Antonio Barbosa, e de outros mais, que estavam naquele descoberto de ouro, dos quais não se lembra. Que não sabia se algum dos dois trazia consigo uma partícula consagrada, embora tenha ouvido alguma coisa a respeito de Joaquim Lopes e seu irmão, no mesmo descoberto de ouro.

          - Fls. 12, verso: Antonio Barbosa de Matos, casado, natural da cidade do Rio de Janeiro, batizado na freguesia de São Nicolau de Suruí, recôncavo desta cidade, e morador no caminho "de Minas?", no lugar chamado "O cebolas?", freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Inhomerim, que vive de suas lavouras de milho e feijão, com 33 anos de idade. Disse que conhece muito bem a Agostinho de Abreu Castelo Branco, o Francisco de Paula, filho do Dr. Jorge de Abreu, apelidado "O çeçia?", e que também conhece muito bem o Manuel Henriques, chamado "O Mão de Luva", com o qual andou dois anos no mato, e que é filho de Minas, de "Manoel Henriques Molhor", morador em São Nicolau de Suruí, e o dito Agostinho também é filho de Minas, que os conhece porque conviveu com Manuel Henrique dois anos, e com Agostinho perto de um, e que havia cerca de dois anos e meio que se separaram, e que ouviu dizer que ambos estavam em Minas Gerais, mas que não sabe se eles teriam as tais partículas consagradas.
- Obs.: Veja mais informações e toda a ascendência desta testemunha na família Fagundes do Amaral.

          - Fls. 14, verso e 19: João de Abreu Macedo, casado, natural da cidade do Rio de Janeiro, batizado na freguesia de São Gonçalo, recôncavo desta mesma cidade, morador na freguesia da Sé, que vive do ofício de carpinteiro, testemunha, com 52 para 53 anos de idade. Ouviu falar em Agostinho de Abreu, com o nome de Francisco de Paula, mas que não sabe coisa alguma dele, mas que conhece muito bem Manuel Henriques, chamado de Mão de Luva, do Xopotó, com quem andou por 5 meses no mato, em um descoberto de ouro, haverão três anos que se separaram, por ter ido Manuel Henriques para Minas Gerais, de onde é natural, filho de "Antonio Henriques Molhor", morador em São Nicolau do Suruí, recôncavo desta cidade. Que ouviu do próprio Manuel Henriques, que ele havia tirado um preso da cadeia de São João de El-Rei, e o levado sozinho para a cadeia de Vila Rica, e que um conhecido de nome Simão disse que Manuel Henriques faz coisas que não parecem naturais, mas sim diabólicas. Mas que não sabe se Francisco de Paula ou Manuel Henriques trazem consigo partícula consagrada, mas que o viu tirar da sua algibeira alguma coisa, que colocava no pescoço, com a qual se tornava intrépido, enfrentando qualquer perigo.

          - Fls. 16 e 19: Manoel Ferreira da Costa (conforme assinatura em fls. 11, e não da Costa Ferreira, como está em fls. 16), morador no morro "do Mateus?" Leme, freguesia do Curral de El-Rei, comarca de Sabará, casado, por ora nesta cidade, onde veio fazer seu negócio, testemunha, com trinta e seis anos de idade, pouco mais ou menos. Disse que não conhece de vista a Agostinho de Abreu Castelo Branco, mas sabe que ele é filho do Dr. Jorge de Abreu, "o çeçia?" (é o 2º lugar em que abaixo deste apelido, ilegível aparecem uns tracinhos, que não dá para saber se são cedilhas ou não), e natural de Minas, ... novo descoberto na Borda do Campo, e não conhece Manuel Henriques, o Mão de Luva. Que ouve falar do Agostinho de Abreu há cerca de quinze anos, mas que não sabe onde ele está. Que não sabe se o dito Agostinho mudou o nome para Francisco de Paula, só sabe, de ouvir de Manoel Antonio, de alcunha o (Turio? Turco? Tunco?), há cerca de 4 anos, pouco mais ou menos, o qual (veio?) das partes de São Paulo (onde este estaria em 1783, foragido da justiça), que Agostinho, seu amigo, usava uma partícula consagrada, pedra ... sagrada, (com três relíquias?) tiradas de capelas por onde havia andado.
- Obs.: O 1º marido da esposa do Mão de Luva, Maria de Souza, chamava-se Manoel da Costa Ferreira, f. 1773, deixou o filho Manoel da Costa, que era enteado do Mão de Luva, mas que talvez não tivesse 36 anos na data deste testemunho (o processo é de 1781), mas poderia ser um parente dos mesmos (veja o casamento do Mão de Luva, e de um dos seus filhos, na página Povoadores, onde tem também o nome provavelmente mais correto do pai dele, Manoel Henriques Malho).

          - Fls. 17, verso e 19: Joaquim Lopes da Silva, testemunha, 34 ou 35 anos, pouco mais ou menos, solteiro, natural do Rio de Janeiro, freguesia de Ilumerim (Inhumerim?), recôncavo desta cidade, que vive de sua lavoura. Que conhece muito bem Agostinho de Abreu Castelo Branco, filho de Minas (que em 1783 vivia no Serro Frio, MG), e do Advogado Jorge de Abreu, por alcunha o "çeçia?", há cerca de 4 anos, e Manuel Henriques, chamado Mão de Luva, filho de Minas, mas não sabe de onde, com este andou cerca de um ano no mato, e com quem fez amizade, e que ouviu dizer que era filho de "Manoel Henriques Molhor", mas que disto não tem certeza, e que ele seria morador de São Nicolau do Suruí, recôncavo desta cidade. Que não conhece nada contra eles que possa interessar a este Santo Tribunal, nem que tivessem consigo alguma partícula consagrada, o que, em fls. 19, foi confirmado também pelo seu irmão José Lopes.

                                                      COMENTÁRIOS

          1) Desde alguns anos já achava que Agostinho fosse o mesmo Cap. Agostinho José de Abreu Castelo Branco, natural de Mariana, MG, b. 1751, filho do Dr. Jorge de Abreu Castelo Branco, Advogado, que também foi Padre, e sua mulher, Jacinta Teresa de Jesus, que está em fls. 236, do livro "Velhos Troncos Mineiros", do Cônego R. Trindade, com sua ascendência e alguma descendência, o que não havia conseguido confirmar em qualquer das dezenas de livros e documentos pesquisados, o que agora considero que não haja mais dúvida.

          2) Pela primeira vez estou vendo em um documento o nome do pai do Mão de Luva, que já havia procurado exaustivamente em livros e documentos existentes no Brasil, embora o segundo sobrenome "Molhor" deva ser confirmado, já que sempre aparece escrito no documento de forma quase ilegível.

          3) Veja também: Povoadores.

 

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